O
esclarecimento prévio não é gratuito. Esse preâmbulo é tão somente uma justificativa
para a ousadia deste humilde colunista e da tese tão controversa que ele
pretende defender por aqui. A despeito de envolver sua escola de coração, este
que vos escreve não tem nem um medo de cravar, sem sombra de dúvida, que o
desfile campeão da Portela em 2017 é o melhor da carreira do carnavalesco Paulo
Barros.
O
trabalho de Paulo sempre foi alvo de controvérsias, notadamente os dos
carnavais a partir de 2004, quando seu trabalho na Unidos da Tijuca se
populariza para além do público do carnaval, ganhando a mídia e chamando a
atenção até de quem nunca pisou na Sapucaí. Enquanto suas inovações na temática
e na concepção das alegorias empolgavam a imprensa e a audiência, alguns
narizes se torciam diante do excesso de referências pop e pirotecnias visuais
que deixavam em segundo plano o samba e os sambistas. O trabalho do
carnavalesco, como se vê, tem qualidades e defeitos, prós e contras, como
qualquer atividade humana. E é da perfeita sintonia fina entre a exacerbação
máxima de suas qualidades e o controle ao mínimo possível de seus eventuais
contras que nasceu esse desfile.
Pra
começo de conversa, o carnavalesco já abriu seu espetáculo rebatendo com ênfase
e maestria uma crítica recorrente ao seu trabalho, a suposta falta de
reverência pelas raízes culturais do samba e de suas origens afro-brasileiras.
O enredo, uma ode à importância dos rios para o desenvolvimento da humanidade
começava com uma comissão de frente que evocava um fenômeno natural observado
nos rios brasileiros, a piracema. O termo, herdado dos povos originários destas
terras, significa “agitação dos peixes” em tupi-guarani e se refere ao
movimento migratório que algumas espécies de peixes fazem em direção às
nascentes dos rios para desovar. À comissão se seguiu o casal de Mestre-Sala e
Porta-Bandeira, caracterizados como Oxum e Oxóssi, entidades do panteão
afro-brasileiro associadas aos rios e às matas.
Para
o desarme total de quem ainda ousasse questionar a brasilidade do enredo, Paulo
ainda inseriu, ao longo do desfile, homenagens a grandes baluartes portelenses.
Detalhe perfeito para evocar as raízes da festa e para contemplar a tradição
portelense de se auto-referenciar sempre, independente do enredo. Em lugar de
ícones da cultura pop, como Michael Jackson ou personagens de blockbusters
hollywodianos, ele trouxe para avenida orixás, indígenas, ribeirinhos e
sambistas.
Outro
aspecto que pouco se fazia presente nos desfiles de Paulo Barros, e cuja
ausência era constantemente sentida e criticada, era o posicionamento crítico.
O carnavalesco nunca foi célebre por fazer críticas sociais em seus enredos,
mas, nesse caso específico, ele foi cirúrgico. Aproveitando a oportunidade de
passear pela história de grandes rios mundo afora, ele aproveitou para
denunciar a atrocidade cometida pela mineradora Vale do Rio Doce contra o Rio
Doce e as populações do seu entorno. Num acidente causado por gritante descaso
da empresa, uma de suas barragens se rompeu e fez com que uma avalanche de
dejetos, engolisse o rio, seu ecossistema e destruísse a cidade às suas
margens. Centenas de pessoas morreram, outras tantas perderam tudo o que tinham e os responsáveis desfrutam, até hoje, de vergonhosa impunidade. Paulo evocou o
episódio numa alegoria tocante, onde a escultura de um ribeirinho coberto de lama
clamava por socorro aos céus em meio a um pranto desesperado e cartazes de
protesto.
Tudo
o que foi exposto nos parágrafos anteriores pode sugerir ao leitor desavisado
que o trabalho do carnavalesco foi completamente descaracterizado e que ele
renegou por completo sua identidade e marcas registradas. Nada mais falso.
Quase todas as características mais marcantes do trabalho do carnavalesco desde
sempre estavam naquele desfile. A mais famosa de suas assinaturas, as chamadas
alegorias vivas, onde os figurantes integram-se à identidade visual do carro
alegórico com movimentos coreografados, apareceu por todo o desfile. Em um
deles, figurantes vestidos de ribeirinhos desapareciam dentro da alegoria. Em
outro, os componentes ocultavam-se sob capuzes para, no momento apropriado,
revelarem-se trajados como baluartes históricos da Portela. Mais Paulo Barros
impossível.
As
fantasias ousadas que, não raro exigem esforço físico do desfilante, também
marcaram ponto, como as alas vestidas inteiras numa fantasia única como o leito
de um rio. Ou mesmo a divertidíssima ala dos crocodilos americanos, cujos
componentes rastejavam em trechos específicos do desfile, num efeito
deliciosamente realista.
O
fato é que Paulo Barros saiu de sua zona de conforto num grau raras vezes
visto, resultando num carnaval esteticamente agradabilíssimo, com conteúdo
informativo numa narrativa coesa e bastante clara para quem assistia. Que foi
bastante favorecida, por sinal, pelo primoroso texto da sinopse escrita por
Paulo em parceria com Isabel Azevedo, Ana Paula Trindade e Simone Martins. Não
foi sem razão que Milton Cunha, comentarista de carnaval da Rede Globo, disse,
em meio à transmissão do desfile, considerar o texto o melhor do carnaval
daquele ano.
De toda forma, esse movimento levado
a cabo pelo carnavalesco resultou num desfile original, leve e extremamente
respeitoso aos fundamentos da festa e às características da escola. Campeão com
méritos, a despeito da posterior divisão do título com a Mocidade Independente
de Padre Miguel. Paulo Barros conseguiu a proeza de ousar sem recorrer a
lugares comuns e soluções fáceis. E foi mais Paulo Barros do que nunca.