segunda-feira, 21 de junho de 2021

O melhor e mais autêntico Paulo Barros


       

    Para nós, que assistimos, estudamos e escrevemos sobre carnaval, sempre se apresenta um desafio cotidiano, muito semelhante ao dos cronistas esportivos, que é deixar clara a dissociação entre a paixão e a análise técnica. Por mais que deixemos clara essa distinção, sempre que a paixão por uma agremiação é declarada, a opinião técnica tem que ser ainda mais embasada, para que o elogio não passe por pachequice ou a crítica por cornetagem. 

   O esclarecimento prévio não é gratuito. Esse preâmbulo é tão somente uma justificativa para a ousadia deste humilde colunista e da tese tão controversa que ele pretende defender por aqui. A despeito de envolver sua escola de coração, este que vos escreve não tem nem um medo de cravar, sem sombra de dúvida, que o desfile campeão da Portela em 2017 é o melhor da carreira do carnavalesco Paulo Barros. 

    O trabalho de Paulo sempre foi alvo de controvérsias, notadamente os dos carnavais a partir de 2004, quando seu trabalho na Unidos da Tijuca se populariza para além do público do carnaval, ganhando a mídia e chamando a atenção até de quem nunca pisou na Sapucaí. Enquanto suas inovações na temática e na concepção das alegorias empolgavam a imprensa e a audiência, alguns narizes se torciam diante do excesso de referências pop e pirotecnias visuais que deixavam em segundo plano o samba e os sambistas. O trabalho do carnavalesco, como se vê, tem qualidades e defeitos, prós e contras, como qualquer atividade humana. E é da perfeita sintonia fina entre a exacerbação máxima de suas qualidades e o controle ao mínimo possível de seus eventuais contras que nasceu esse desfile. 

    Pra começo de conversa, o carnavalesco já abriu seu espetáculo rebatendo com ênfase e maestria uma crítica recorrente ao seu trabalho, a suposta falta de reverência pelas raízes culturais do samba e de suas origens afro-brasileiras. O enredo, uma ode à importância dos rios para o desenvolvimento da humanidade começava com uma comissão de frente que evocava um fenômeno natural observado nos rios brasileiros, a piracema. O termo, herdado dos povos originários destas terras, significa “agitação dos peixes” em tupi-guarani e se refere ao movimento migratório que algumas espécies de peixes fazem em direção às nascentes dos rios para desovar. À comissão se seguiu o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, caracterizados como Oxum e Oxóssi, entidades do panteão afro-brasileiro associadas aos rios e às matas.

    Para o desarme total de quem ainda ousasse questionar a brasilidade do enredo, Paulo ainda inseriu, ao longo do desfile, homenagens a grandes baluartes portelenses. Detalhe perfeito para evocar as raízes da festa e para contemplar a tradição portelense de se auto-referenciar sempre, independente do enredo. Em lugar de ícones da cultura pop, como Michael Jackson ou personagens de blockbusters hollywodianos, ele trouxe para avenida orixás, indígenas, ribeirinhos e sambistas. 

  Outro aspecto que pouco se fazia presente nos desfiles de Paulo Barros, e cuja ausência era constantemente sentida e criticada, era o posicionamento crítico. O carnavalesco nunca foi célebre por fazer críticas sociais em seus enredos, mas, nesse caso específico, ele foi cirúrgico. Aproveitando a oportunidade de passear pela história de grandes rios mundo afora, ele aproveitou para denunciar a atrocidade cometida pela mineradora Vale do Rio Doce contra o Rio Doce e as populações do seu entorno. Num acidente causado por gritante descaso da empresa, uma de suas barragens se rompeu e fez com que uma avalanche de dejetos, engolisse o rio, seu ecossistema e destruísse a cidade às suas margens. Centenas de pessoas morreram, outras tantas perderam tudo o que tinham e os responsáveis desfrutam, até hoje, de vergonhosa impunidade. Paulo evocou o episódio numa alegoria tocante, onde a escultura de um ribeirinho coberto de lama clamava por socorro aos céus em meio a um pranto desesperado e cartazes de protesto. 

    Tudo o que foi exposto nos parágrafos anteriores pode sugerir ao leitor desavisado que o trabalho do carnavalesco foi completamente descaracterizado e que ele renegou por completo sua identidade e marcas registradas. Nada mais falso. Quase todas as características mais marcantes do trabalho do carnavalesco desde sempre estavam naquele desfile. A mais famosa de suas assinaturas, as chamadas alegorias vivas, onde os figurantes integram-se à identidade visual do carro alegórico com movimentos coreografados, apareceu por todo o desfile. Em um deles, figurantes vestidos de ribeirinhos desapareciam dentro da alegoria. Em outro, os componentes ocultavam-se sob capuzes para, no momento apropriado, revelarem-se trajados como baluartes históricos da Portela. Mais Paulo Barros impossível. 

   As fantasias ousadas que, não raro exigem esforço físico do desfilante, também marcaram ponto, como as alas vestidas inteiras numa fantasia única como o leito de um rio. Ou mesmo a divertidíssima ala dos crocodilos americanos, cujos componentes rastejavam em trechos específicos do desfile, num efeito deliciosamente realista. 

   O fato é que Paulo Barros saiu de sua zona de conforto num grau raras vezes visto, resultando num carnaval esteticamente agradabilíssimo, com conteúdo informativo numa narrativa coesa e bastante clara para quem assistia. Que foi bastante favorecida, por sinal, pelo primoroso texto da sinopse escrita por Paulo em parceria com Isabel Azevedo, Ana Paula Trindade e Simone Martins. Não foi sem razão que Milton Cunha, comentarista de carnaval da Rede Globo, disse, em meio à transmissão do desfile, considerar o texto o melhor do carnaval daquele ano. 

    De toda forma, esse movimento levado a cabo pelo carnavalesco resultou num desfile original, leve e extremamente respeitoso aos fundamentos da festa e às características da escola. Campeão com méritos, a despeito da posterior divisão do título com a Mocidade Independente de Padre Miguel. Paulo Barros conseguiu a proeza de ousar sem recorrer a lugares comuns e soluções fáceis. E foi mais Paulo Barros do que nunca.


sexta-feira, 4 de junho de 2021

Escolas de Samba, Escolas de Ancestralidade


Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

   
    Antes de se encontrar em definitivo com sua história e suas raízes abraçando os orixás, este modesto analista teve uma caminhada na espiritualidade das mais diversificadas. Além das religiões afro e do espiritismo kardecista, assim como uma parcela gigante da população brasileira, tive uma sólida formação católica, com direito ao pacote mais comum de sacramentos. O combo básico, com batismo, primeira comunhão, crisma e matrimônio. Só o divórcio não vinha incluído, foi caro e, infelizmente, pago por fora.

    É forçoso admitir que eu não dei muita sorte. Caso o grosso da minha caminhada na Igreja tivesse se passado no fim dos anos de 1970 e princípio dos 80, certamente ela teria sido muito mais proveitosa. Embora o Papa João Paulo II tivesse uma proximidade perniciosa com figuras nefastas como Ronald Reagan e Margaret Tatcher, a Teologia da Libertação ainda tinha razoável influência entre o rebanho católico do nosso continente, o que o deixava bem mais crítico e politizado. Infelizmente, minha jornada pelo catolicismo se deu durante o grande sucesso experimentado pela Renovação Carismática ao longo dos anos 90, o que resultou numa grande guinada conservadora da Igreja Católica. Sem falar no desastre musical que era o medonho fenômeno dos padres cantores como Zeca, Jorjão e Marcelo Rossi.

    Contudo, em meio àquela onda conservadora de gosto musical discutível, com padres indo até em programa de auditório dominical, havia uma canção que, pela melodia bonita e simples e pela poesia da letra, sobressaía daquele festival de bizarrices. Eu sempre ouvia com muito gosto a conhecida Oração da Família, um dos maiores sucessos do Padre Zezinho (que tinha um repertório de nível muito acima de seus colegas, diga-se). As razões para ouvir a Oração da Família com carinho eram muitas, a começar pelas sutis alfinetadas políticas incluídas entre os muitos pedidos que a canção, que era uma oração musicada, fazia. Como quem não quer nada, o autor pedia para que “nenhuma família se abrigasse embaixo da ponte”, ou “que ninguém os obrigue a viver sem nenhum horizonte”. Além disso, um verso específico me tocava particularmente: “Que as crianças aprendam no colo o sentido da vida”.

    Herdeiros que somos de culturas com forte tradição oral, nos fala fundo na alma o costume, tão sagrado quanto tradicional, da transmissão do conhecimento sendo feita diretamente dos mais velhos aos mais novos. A imagem de um grupo de jovens e crianças, sentados em roda em torno de um idoso ao qual eles ouvem atentamente, à sombra de um baobá, nos toca pelo simples fato de que ela foi, durante milênios, uma forma legítima e amplamente disseminada de passar conhecimento adiante. Ritos religiosos, práticas artísticas, costumes de socialização e técnicas de construção, caça, plantio e de produção de utensílios, tudo isso foi aprendido e ensinado pela tradição oral por muito tempo e permitiu a construção de civilizações das mais variadas no continente mãe.

    Evidentemente, como acontece com aspectos diversos de nossas culturas ancestrais, essas práticas foram deslegitimadas durante muito tempo. Não faltou autor bastante lido e celebrado que defendesse que o continente africano não tinha História por ter muitas culturas em que a oralidade era um traço cultural marcante. Hegel era um dos que defendia esse argumento, de que a ação humana de nossos ancestrais se aproximava da natureza e se afastava da cultura. Qualquer semelhança com o discurso mais recente de que funk não é música ou de que as religiões de matriz africana são do demônio não é mera coincidência. A desqualificação de nossas práticas culturais sempre foi a justificativa clássica para que nossa destruição soe palatável.

     O fato é que nossa tradição oral é parte integrante de nossa potência. Sim, potência. Nossa tradição oral é um aspecto primordial da força de nossas culturas. Tanto que uma figura das mais importantes das sociedades da África Ocidental era o Griot, guardião da tradição oral através da arte de cantar e contar Histórias.

    Se isso é parte de nossa potência, nada mais natural que busquemos nos reconectar com nossa História e nossas tradições, e passá-las adiante com a molecada preta. A escola pode e deve ajudar nesse processo (ela inclusive está legalmente obrigada a isso), mas em tempos de avanço do fundamentalismo religioso, não podemos contar que nossa história, nossa luta, nossa arte e nossas religiões virarão matéria escolar. Somos nós que teremos que conduzir a criançada nesse processo. Que eles aprendam no nosso colo o sentido da vida. Levando os pretinhos nessa busca, eles não vão crescer sem referências, entubando passivamente que algum racista posudo saia por aí propagando a ideia de o som que eles fazem e curtem não é música.

    Essa reconexão pode parecer algo abstrato ou distante, mas não é bem assim. Eu, por exemplo, me reencontro com meus Griots regularmente para aprender com eles sobre como ganhar a vida, como manter a fé e sobre como lidar com amores ganhos e perdidos. Como já é sabido por quem acompanha esse trabalho, tenho alguns aspectos da cultura afro-brasileira como objeto de estudo acadêmico e fonte de lazer e autoconhecimento. Minha área de formação é História e o tema de meu TCC e de alguns trabalhos que publiquei é a maneira como a História do Brasil é abordada nos enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro. Tenho experiência com Departamentos Culturais de escolas de samba como a Portela e a Lins Imperial e já fui avaliador da premiação do desfile das Escolas de Samba Mirins. Essa autocelebração toda não é gratuita. É apenas pra deixar claro que, pra mim, os griots estão vivíssimos na figura de nossos sambistas veteranos, em cada baiana ou em cada membro de nossas velhas guardas. As escolas de samba, inclusive têm um belo histórico de resistência, através de uma capacidade ímpar de leitura da conjuntura política de seu tempo em diferentes momentos históricos.

    As quadras das escolas são espaços sagrados, que ainda remetem às origens das agremiações, com vínculos estreitos com as religiões de matriz africana, abrigando com destaque assentamentos, capelas, oratórios e espaços de devoção. E, embora essa característica já não seja mais tão facilmente identificável, as batidas das baterias descendem diretamente dos toques executados em honra aos orixás protetores de cada uma das agremiações.

    As escolas de samba são organismos vivos, espaços de produção cultural e artística e epicentros da vida social e de suas comunidades. A mais perfeita tradução do aquilombamento moderno, tão decantado por intelectuais antenados nas questões raciais. Os enredos são ricas fontes de conhecimento, muitas vezes abordando personagens, acontecimentos e obras de arte de absoluta relevância às quais, em muitos casos, somos apresentados exatamente por conta dos desfiles. Não tenho como quantificar o tanto de temas apaixonantes que me foram apresentados pela primeira vez num desfile de carnaval. Da poesia de Manoel de Barros às pinturas de Tarsila do Amaral, da música de Villa-Lobos à saga heroica dos revoltosos Malês, da importância histórica e geográfica do Cais do Valongo à arquitetura de Niemeyer… são tanto os assuntos que o carnaval me apresentou ou me ajudou a conhecer melhor que não posso quantificar. As escolas de samba podem ser tudo. Espaços de lazer, cultura, arte, convivência, assistência social e aprendizado. E, mais importante de tudo, elas fazem muito mais jus ao nome “escolas” do que os não frequentadores podem imaginar.

    Um dos aspectos mais emocionantes de se freqüentar regularmente as quadras das escolas de samba é presenciar a cena, tão deliciosa quanto recorrente, das crianças, em geral filhos e netos de frequentadores, correndo pelas dependências da escola e se apropriando daquele espaço. Ali elas se aquilombam, se empoderam e se reconhecem. Talvez seja difícil, naquele maravilhoso e amplo espaço de convivência, querer manter as crianças no colo quando elas mais querem correr, brincar e sambar. Mas não consigo, entretanto, pensar num lugar melhor do que aquele para que elas aprendam sobre o sentido da vida. Principalmente da vida preta.

    As Escolas de Samba são um espaço para maravilhoso de reconexão para com nossas tradições, mas não são os únicos. Cabe a cada um de nós descobrir onde encontrar nossos Griots e apresentá-los à molecada preta.


quarta-feira, 2 de junho de 2021

Parangolé da Cultura

 


   

    É com satisfação que compartilho com vocês um evento acadêmico de que participei recentemente, o I Parangolé da Cultura, organizado pela galera do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da UFRJ. Foi uma rica tarde de aprendizado e troca, conversando sobre Carnaval com um timaço de conhecedores do assunto. Segue aqui a descrição do evento e apresentação dos participantes tirada do próprio canal:

    Por achar que é preciso insistir na alegria possível, o primeiro Parangolé da Cultura na Universidade de 2021 mantém debate sobre os Cem anos das escolas de samba e a prova dos nove do carnaval no Brasil.

    O colóquio intenta debater os cem anos das Escolas de Samba neste momento em que o calendário foi interrompido para manutenção do isolamento social em função da emergência sanitária que dura mais de um ano e arranca muitas vidas.

    O fato de o desfile não acontecer, não impede que se pense sobre a importância do carnaval e das Escolas de Samba para pensar o Brasil. Nesse sentido, são convidados a falar sobre esse tema historiadores, pesquisadores sobre o carnaval e mestres batutas que conduzem suas escolas e blocos por entre avenidas e ruas das cidades ou ambientes digitais.

São eles:

• Luiz Antônio Simas, professor e historiador que tem o samba como um dos objetos de suas pesquisas;

• Paulo César Miguez, ex-Secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura e Vice-Reitor da UFBA;

• Pedro Ernesto, presidente do Cordão do Bola Preta;

• Mauro Sérgio Farias, Diretor de Cultura da Escola de Samba Portela;

• Felipe Fernandes, vocalista e guitarrista, fundador do Bloco do Sargento Pimenta;

• Mestre Leo da Batucada Assanhada e Júlia Figueredo, também do Bloco Minerva Assanhada;

• Matheus Tuche, diretor do Bloco Ih, é Carnaval; e

• Isabela Dantas, diretora do Bloco Dinossauros Nacionais.

Com mediação de Daniel Conceição, professor do IPPUR e Waldelice Souza, da CAC-CCJE.