sexta-feira, 4 de junho de 2021

Escolas de Samba, Escolas de Ancestralidade


Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

   
    Antes de se encontrar em definitivo com sua história e suas raízes abraçando os orixás, este modesto analista teve uma caminhada na espiritualidade das mais diversificadas. Além das religiões afro e do espiritismo kardecista, assim como uma parcela gigante da população brasileira, tive uma sólida formação católica, com direito ao pacote mais comum de sacramentos. O combo básico, com batismo, primeira comunhão, crisma e matrimônio. Só o divórcio não vinha incluído, foi caro e, infelizmente, pago por fora.

    É forçoso admitir que eu não dei muita sorte. Caso o grosso da minha caminhada na Igreja tivesse se passado no fim dos anos de 1970 e princípio dos 80, certamente ela teria sido muito mais proveitosa. Embora o Papa João Paulo II tivesse uma proximidade perniciosa com figuras nefastas como Ronald Reagan e Margaret Tatcher, a Teologia da Libertação ainda tinha razoável influência entre o rebanho católico do nosso continente, o que o deixava bem mais crítico e politizado. Infelizmente, minha jornada pelo catolicismo se deu durante o grande sucesso experimentado pela Renovação Carismática ao longo dos anos 90, o que resultou numa grande guinada conservadora da Igreja Católica. Sem falar no desastre musical que era o medonho fenômeno dos padres cantores como Zeca, Jorjão e Marcelo Rossi.

    Contudo, em meio àquela onda conservadora de gosto musical discutível, com padres indo até em programa de auditório dominical, havia uma canção que, pela melodia bonita e simples e pela poesia da letra, sobressaía daquele festival de bizarrices. Eu sempre ouvia com muito gosto a conhecida Oração da Família, um dos maiores sucessos do Padre Zezinho (que tinha um repertório de nível muito acima de seus colegas, diga-se). As razões para ouvir a Oração da Família com carinho eram muitas, a começar pelas sutis alfinetadas políticas incluídas entre os muitos pedidos que a canção, que era uma oração musicada, fazia. Como quem não quer nada, o autor pedia para que “nenhuma família se abrigasse embaixo da ponte”, ou “que ninguém os obrigue a viver sem nenhum horizonte”. Além disso, um verso específico me tocava particularmente: “Que as crianças aprendam no colo o sentido da vida”.

    Herdeiros que somos de culturas com forte tradição oral, nos fala fundo na alma o costume, tão sagrado quanto tradicional, da transmissão do conhecimento sendo feita diretamente dos mais velhos aos mais novos. A imagem de um grupo de jovens e crianças, sentados em roda em torno de um idoso ao qual eles ouvem atentamente, à sombra de um baobá, nos toca pelo simples fato de que ela foi, durante milênios, uma forma legítima e amplamente disseminada de passar conhecimento adiante. Ritos religiosos, práticas artísticas, costumes de socialização e técnicas de construção, caça, plantio e de produção de utensílios, tudo isso foi aprendido e ensinado pela tradição oral por muito tempo e permitiu a construção de civilizações das mais variadas no continente mãe.

    Evidentemente, como acontece com aspectos diversos de nossas culturas ancestrais, essas práticas foram deslegitimadas durante muito tempo. Não faltou autor bastante lido e celebrado que defendesse que o continente africano não tinha História por ter muitas culturas em que a oralidade era um traço cultural marcante. Hegel era um dos que defendia esse argumento, de que a ação humana de nossos ancestrais se aproximava da natureza e se afastava da cultura. Qualquer semelhança com o discurso mais recente de que funk não é música ou de que as religiões de matriz africana são do demônio não é mera coincidência. A desqualificação de nossas práticas culturais sempre foi a justificativa clássica para que nossa destruição soe palatável.

     O fato é que nossa tradição oral é parte integrante de nossa potência. Sim, potência. Nossa tradição oral é um aspecto primordial da força de nossas culturas. Tanto que uma figura das mais importantes das sociedades da África Ocidental era o Griot, guardião da tradição oral através da arte de cantar e contar Histórias.

    Se isso é parte de nossa potência, nada mais natural que busquemos nos reconectar com nossa História e nossas tradições, e passá-las adiante com a molecada preta. A escola pode e deve ajudar nesse processo (ela inclusive está legalmente obrigada a isso), mas em tempos de avanço do fundamentalismo religioso, não podemos contar que nossa história, nossa luta, nossa arte e nossas religiões virarão matéria escolar. Somos nós que teremos que conduzir a criançada nesse processo. Que eles aprendam no nosso colo o sentido da vida. Levando os pretinhos nessa busca, eles não vão crescer sem referências, entubando passivamente que algum racista posudo saia por aí propagando a ideia de o som que eles fazem e curtem não é música.

    Essa reconexão pode parecer algo abstrato ou distante, mas não é bem assim. Eu, por exemplo, me reencontro com meus Griots regularmente para aprender com eles sobre como ganhar a vida, como manter a fé e sobre como lidar com amores ganhos e perdidos. Como já é sabido por quem acompanha esse trabalho, tenho alguns aspectos da cultura afro-brasileira como objeto de estudo acadêmico e fonte de lazer e autoconhecimento. Minha área de formação é História e o tema de meu TCC e de alguns trabalhos que publiquei é a maneira como a História do Brasil é abordada nos enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro. Tenho experiência com Departamentos Culturais de escolas de samba como a Portela e a Lins Imperial e já fui avaliador da premiação do desfile das Escolas de Samba Mirins. Essa autocelebração toda não é gratuita. É apenas pra deixar claro que, pra mim, os griots estão vivíssimos na figura de nossos sambistas veteranos, em cada baiana ou em cada membro de nossas velhas guardas. As escolas de samba, inclusive têm um belo histórico de resistência, através de uma capacidade ímpar de leitura da conjuntura política de seu tempo em diferentes momentos históricos.

    As quadras das escolas são espaços sagrados, que ainda remetem às origens das agremiações, com vínculos estreitos com as religiões de matriz africana, abrigando com destaque assentamentos, capelas, oratórios e espaços de devoção. E, embora essa característica já não seja mais tão facilmente identificável, as batidas das baterias descendem diretamente dos toques executados em honra aos orixás protetores de cada uma das agremiações.

    As escolas de samba são organismos vivos, espaços de produção cultural e artística e epicentros da vida social e de suas comunidades. A mais perfeita tradução do aquilombamento moderno, tão decantado por intelectuais antenados nas questões raciais. Os enredos são ricas fontes de conhecimento, muitas vezes abordando personagens, acontecimentos e obras de arte de absoluta relevância às quais, em muitos casos, somos apresentados exatamente por conta dos desfiles. Não tenho como quantificar o tanto de temas apaixonantes que me foram apresentados pela primeira vez num desfile de carnaval. Da poesia de Manoel de Barros às pinturas de Tarsila do Amaral, da música de Villa-Lobos à saga heroica dos revoltosos Malês, da importância histórica e geográfica do Cais do Valongo à arquitetura de Niemeyer… são tanto os assuntos que o carnaval me apresentou ou me ajudou a conhecer melhor que não posso quantificar. As escolas de samba podem ser tudo. Espaços de lazer, cultura, arte, convivência, assistência social e aprendizado. E, mais importante de tudo, elas fazem muito mais jus ao nome “escolas” do que os não frequentadores podem imaginar.

    Um dos aspectos mais emocionantes de se freqüentar regularmente as quadras das escolas de samba é presenciar a cena, tão deliciosa quanto recorrente, das crianças, em geral filhos e netos de frequentadores, correndo pelas dependências da escola e se apropriando daquele espaço. Ali elas se aquilombam, se empoderam e se reconhecem. Talvez seja difícil, naquele maravilhoso e amplo espaço de convivência, querer manter as crianças no colo quando elas mais querem correr, brincar e sambar. Mas não consigo, entretanto, pensar num lugar melhor do que aquele para que elas aprendam sobre o sentido da vida. Principalmente da vida preta.

    As Escolas de Samba são um espaço para maravilhoso de reconexão para com nossas tradições, mas não são os únicos. Cabe a cada um de nós descobrir onde encontrar nossos Griots e apresentá-los à molecada preta.


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